Ramen, o famoso miojo japonês

Mas peraí, é ramen ou é lámen? É chinês ou japonês? Fica comigo que eu vou te explicar tudo isso e mostrar por que esse prato asiático é tão especial.

No sistema de escrita japonês, conhecido como silabário (lá a escrita é organizada por sílabas e sons, não por letras como a nossa), a palavra é escrita como ra (ラ), me (メ) e n (ン): ramen. Em português, tanto ramen quanto lámen estão corretos. A segunda forma é apenas uma adaptação da pronúncia para a nossa língua.

Apesar de ter surgido na China, foi no Japão que o ramen ganhou a forma pela qual é conhecido hoje. A partir do século XX, com a imigração chinesa, o prato começou a ser incorporado e transformado de acordo com a cultura e o paladar japonês. A história também ajudou nessa popularização: após a Segunda Guerra Mundial, o arroz estava escasso no Japão, enquanto havia grande oferta de farinha de trigo importada dos Estados Unidos. Como o macarrão era barato e fácil de produzir, o ramen rapidamente conquistou o país.

Agora chega de história e vamos ao que interessa.

De maneira “tosca” e, para alguns, até desrespeitosa, dá para dizer que o ramen é um miojo japonês. Mas seria mais correto chamá-lo de um miojo ultra premium. Na verdade, talvez nem faça sentido compará-los. Enquanto um representa o ápice dos alimentos industrializados, o outro é uma verdadeira obra de arte culinária, construída em camadas para criar uma explosão de sabores.

Um ramen artesanal é formado por cinco elementos: o broth (caldo), o tare (concentrado de tempero), o kōmi abura (óleo aromático), os noodles (macarrão) e os toppings, que são os ingredientes adicionados sobre toda essa composição.

Esse é o Black Toripaitan Ramen do Yujin aqui em Curitiba. Ele é tão bom quanto aquele do Japão que mostrei acima, compete com as melhores casas de ramen japonesas sem sombra de dúvidas. Esse é um ramen mais denso, caldo sedoso, kōmi abura (óleo aromático) de alho negro super saboroso. O chashu (filé suíno) dissolve na boca e o ponto do ovo está perfeito. Acho que agora você entendeu como só de bater o olho dá pra saber se o ramen é top!

O broth é a base do ramen. É preparado durante horas e fornece corpo, textura e profundidade ao prato. Ao contrário do que muita gente imagina, ele não é o principal responsável pelo tempero. Sua função é servir como a estrutura sobre a qual todos os outros sabores serão construídos.

O tare é o verdadeiro coração do sabor. Trata-se de um concentrado preparado com ingredientes como shoyu, sal ou missô, além de algas, peixes secos, cogumelos e outros elementos ricos em umami. É ele que define a personalidade do ramen e transforma um mesmo caldo em pratos completamente diferentes.

O kōmi abura é o óleo aromático. Pode parecer apenas um detalhe, mas é ele quem entrega grande parte dos aromas que chegam primeiro ao nariz antes mesmo da primeira colherada. Também ajuda a manter o caldo quente e acrescenta ainda mais profundidade ao sabor.

Os noodles são muito mais do que um simples macarrão. Feitos com uma água alcalina chamada kansui, possuem textura, elasticidade e espessura pensadas para combinar com cada tipo de caldo. Em muitas casas de ramen, eles são produzidos artesanalmente todos os dias.

Por fim, vêm os toppings: copa suína (chashu), ovo marinado (ajitama), cebolinha, nori, bambu fermentado e tantos outros ingredientes. Eles não estão ali apenas para decorar; cada um acrescenta textura, aroma e novas camadas de sabor à tigela.

Agora, para descobrir se o ramen que você está comendo é realmente bom, tente perceber todas essas camadas trabalhando em equilíbrio. Parece difícil, mas, depois de experimentar alguns bons ramens, você começa a notar claramente a função de cada uma delas.

Em respeito ao restaurante não vou falar de onde é (e não levar processo), mas esse é um ramen totalmente sem graça, sem equilíbrio, aparece apenas um ou outro sabor meio apagado. Se você observar, o ovo não está no ponto certo, ele está mais solidificado. O chashu (filé suíno) está seco e difícil de morder com os dentes. Só de olhar para o ramen já dá para ter uma ideia da qualidade dele.
Aqui está um dos melhores ramens que experimentei no Japão. Olha o cuidado… tem até o nome do restaurante no nori (folha de alga). O chashu (filé suíno) está maçaricado para dar aquele sabor de defumado e o ovo está no ponto ideal. Esse é o ramen da famosa casa Mutekiya, fiquei quase duas horas de pé no inverno japonês de Toquio esperando minha vez. As casas de ramen japoneses famosas formam fila no quarteirão.

Quando o ramen é bem feito, acontece uma verdadeira explosão de sabores. Imagine todas essas camadas entrando em harmonia no seu paladar. A gema cremosa do ovo se mistura ao caldo, ao tare e ao óleo aromático. A copa suína praticamente derrete na boca enquanto cada ingrediente complementa o outro. Se você nunca experimentou um ramen artesanal de verdade, talvez seu olfato e seu paladar nem estejam preparados para decodificar tanta informação ao mesmo tempo. Pode parecer exagero, mas basta uma boa tigela para entender o que eu chamo de aji bakuretsu: uma verdadeira explosão de sabor.

O que torna o ramen tão especial é justamente isso: cada etapa do seu preparo tem uma função específica e nenhuma tenta fazer o trabalho da outra. Quando todas estão em equilíbrio, o resultado é uma experiência culinária extraordinária. Talvez essa seja a resposta da culinária japonesa para a pergunta de Aristóteles sobre a boa vida: a busca pelo equilíbrio.

Muitas pessoas viajam ao Japão e voltam dizendo que é impossível encontrar no Brasil um ramen comparável aos das excelentes casas japonesas. O viciado em ramen aqui discorda.

Se você mora em Curitiba, pode se considerar privilegiado. Na minha opinião, é aqui que está o melhor ramen do Brasil. Viajei para São Paulo justamente para conhecer algumas das casas mais famosas do país e, para minha surpresa, continuo achando que o melhor está em Curitiba. A casa em questão é o Yujin Ramen Ya. Basta jogar o nome no Maps e depois voltar aqui para me agradecer.

Ramen do restaurante de uma bachan (vovó) em Fujikawaguchiko, cidade do Monte Fuji. Esse ramen possui uma caldo leve e tare de sal, bom para acompanhar o arroz frito com missô. É um dos ramens mais simples e comuns de se encontrar no Japão.

No ramen, nenhum componente tenta fazer tudo sozinho. O caldo fornece estrutura, o tare dá identidade, o óleo aromático desperta os sentidos, o macarrão oferece textura e os toppings completam a experiência. Sozinhos, são excelentes. Juntos, criam algo muito maior do que a soma de suas partes. Talvez seja essa busca de equilíbrio que torne o ramen tão fascinante.

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Written by Diogo Montes
Diogo é psicólogo e a palavra que o define é wanderlust: o desejo constante de explorar o mundo e a si mesmo. Fascinado por diferentes culturas e experiências, sempre foi movido pela curiosidade e busca de significado. O interesse pelo Japão o levou a viver seis meses no país, onde se apaixonou por trilhas, natureza e pelo ramen. Hoje, procura ajudar pessoas a viverem com mais presença e autenticidade.