Revoada de borboletas em São Paulo
Em um momento, Eric tem dois anos. Diverte-se com um brinquedo educativo de carrinhos em meio a uma atividade animada direcionada para as crianças. Pisco. Meu menino, agora um pouco mais velho, está interessado em um livro e brinca com uma casinha de madeira. Num outro dia, com medo que acabasse as pipocas do carrinho na entrada, ele diz:
“Guarda um pacote pra mim, mãe”.
“- Você quer levar um livro”?, pergunto.
Ele escolhe rapidamente só pelo prazer de passar o cartão na maquininha e sai faceiro com sua sacola. Em outro momento, participamos de uma oficina de produção de sua própria capivara de pelúcia.
“Quem se diverte mais é a mãe”, percebe o marido.

A ampulheta corre. Vejo agora um menino que me diz categórico:
“Não quero fazer nenhuma atividade”.
Em outro dia, brincamos de pintura na mesinha das crianças revezando papéis. Ora sou professora, ora estudante. Eric também participa da oficina de massinha. Em seguida, passa o tempo. Agora ele decora biscoitos. A produção segue lentamente. Finaliza o primeiro. Come. Termina o segundo. Come também. Decora o biscoito especial de ‘Dia das Mães’.
“Vamos fazer um bem bonito agora para presentear a mamãe”, diz o oficineiro.
O menino termina e, em seguida, também come esse biscoito inteiro.

Certos lugares são guardiões de nossas histórias e de nossas várias versões. Para mim, livrarias sempre foram essa espécie de refúgio que acolhe almas inquietas. Desde pequena costumo me perder e perambular por esses espaços. Quando a maternidade chegou, passei a estimular meu filho pelo caminho da leitura. Como moradora da capital paulista, sempre que sonho com alguma espécie de experiência, imagino que se for existir em algum lugar do Brasil, provavelmente vou encontrar em São Paulo. Não foi diferente quando pesquisei sobre livrarias especializadas em literatura infanto-juvenil.

Descobri um ecossistema vibrante. Visitamos algumas até que encontrei aquela em que meu filho não queria mais ir embora. Virou nosso oásis em meio ao concreto da cidade. Quando entrei com o Eric pela primeira vez na PanaPaná há alguns anos, imediatamente lembrei do filme Mensagem para Você e da livraria infantil encantadora de Meg Ryan. Curioso como alguns lugares despertam memórias afetivas escondidas em nós. Depois de mais de uma década, revi o filme e finalmente entendi que entre luzinhas, tsurus, crianças rindo, desenhando e ouvindo histórias, a magia da livraria da ficção que eu tanto amava se mostrava ali diante de meus olhos.
Lembrava de Meg Ryan contando histórias e indicando livros. Podíamos ser figurantes do filme aqui mesmo em São Paulo, entre oficinas de massinha, culinária e de produção de sua própria capivara de pelúcia. Lembro também das conversas que tive com as livreiras e de receber ótimas recomendações. Às vezes, além do livro do filho, levo um livro para mim também (como uma linda edição de poemas ilustrados de Walt Whitman, por sinal).

Penso que ser mãe é como ser um jardineiro. Nós plantamos sementes e preparamos o terreno, mas nunca sabemos bem ao certo o que vai germinar no processo. Eu amo compartilhar paixões com o meu filho, mas sempre repito para mim que minha história não é a dele e que o Eric vai encontrar suas próprias paixões. Pode não ser a leitura. Entretanto, também precisamos proporcionar para nossos filhos experiências, a fim de que eles trilhem seus caminhos. Afinal, quem não ama uma boa história?
Reconstruir o significado de frequentar livrarias junto de meu filho me lembra da própria palavra panapaná, termo de origem tupi, que significa um grupo de borboletas. Refere-se ao movimento de suas asas. Viver entre os livros, especialmente na infância, talvez seja sobre isso: ouvir repetidamente as histórias que se ama até que elas passem a morar em você e criar mundos com a imaginação, como uma revoada de borboletas que colore o dia em meio ao concreto da cidade grande.

Serviço:
PanaPaná Livraria Infantil
Endereço: R. Leandro Dupret, 396, Vila Clementino, São Paulo – SP
Horário de funcionamento: de segunda à sexta-feira, das 9 h às 18 h; aos sábados, das 9 h 30 às 17 h 30
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