Poesia que ressoa dentro: conheça o novo livro da Gigi Eco
Quando a gente aproxima um caramujo do ouvido, lembra do oceano. A ciência explica que a concha capta os sons do ambiente, do ar e do nosso próprio fluxo sanguíneo, funcionando como uma câmara de ressonância natural que amplifica todos esses ruídos. A soma de todos esses ecos gerados pela concha resulta na sensação de se ouvir o barulho do mar, efeito que se chama reverberação. Na Física, o que reverbera, como as ondas sonoras, prolonga-se e se espalha, como um bater de asas de uma borboleta que ocasiona revoluções do outro lado do mundo.
Meu novo livro publicado, Como o som do mar dentro de um caramujo, fala das imensidões de fora e de dentro por meio da poesia, nossa câmara de ressonância emocional. Os textos da obra, produzidos na época da pandemia da Covid-19, mostram em um contexto de isolamento o desejo de ouvir o mar lá fora e também de descobrir o oceano interno que cada pessoa carrega. Os poemas foram organizados em três movimentos: um diário poético de 40 dias, produzido nas primeiras semanas da pandemia; cenas cotidianas do período; e também textos que buscavam desenhar um futuro imaginado pós-Covid. A produção seguiu o fluxo de meus processos criativos, em que textos surgem de registros fotográficos do cotidiano.
A obra teve início com o desenvolvimento do projeto Poemas de Quarentena, no qual me propus a escrever um poema por dia durante quarenta dias. Os textos, na época, foram publicados nos perfis de minhas redes sociais pessoais e tiveram repercussão local e regional. Muitas pessoas compartilharam os poemas, que refletiam a mistura de emoções que coletivamente sentíamos frente a um período sombrio e incerto que começávamos a viver.


O termo ‘quarentena’ remete a quarenta dias, prática que veio da época da Peste Negra, na qual os navios ficavam ancorados antes de atracar nos portos. O próprio número 40 é carregado de simbolismo, aparecendo em diversos episódios bíblicos. Ao longo dos séculos, a quarentena se consolidou como uma medida de prevenção ao isolar pessoas expostas a uma doença contagiosa, que mesmo sem sintomas, podiam transmitir o vírus.
A quarentena da Covid-19 durou muito mais de quarenta dias. Passaram-se meses de isolamento, com uso de máscaras e álcool em gel, evitando-se contato físico. Ao longo do período, os textos e fotografias que compõem Como o som do mar dentro de um caramujo foram produzidos, revelando sentimentos individuais que também foram vivenciados coletivamente pelo mundo todo. O medo, a incerteza, a esperança, a nostalgia e o luto retratam essa época inacreditável que vivemos.
O livro, que inicialmente se chamava Poemas de Quarentena, ao longo desses seis anos, mudou de nome, passou por diversas edições e revisões. É uma obra que fala de um momento histórico, mas que também reflete transformações e outros períodos de isolamento que vivenciei nesses seis anos, como uma mudança de cidade, a chegada da maternidade e o próprio puerpério. Essas são algumas curiosidades dos bastidores de escrita da obra. Entretanto, a beleza da leitura sempre é como atravessa e se ressignifica a partir do olhar de quem lê. Que esses versos te aproximem do mar mesmo dentro de casa, amplificando toda essa intensidade bonita que é viver. Como o som do mar dentro de um caramujo se encontra disponível em sua versão digital nesse link.
Leave a Comment