O tempo

O ano inicia e a gente permanece alguns dias no espírito das festas de fim de ano. Nossa cabeça ainda não entrou muito bem na rotina. Com o restinho das férias, vivemos com mais tranquilidade, aproveitando cada instante. Vivendo o momento presente.
Talvez o Ano Novo exista exatamente por isso. Para tirar a gente da rotina. Para nos forçar a pensar em ciclos. Em mudanças. Em transformações. Para nos lembrar de que a vida precisa de leveza. De que precisamos viver com intensidade. Bem aqui, bem agora.
Enquanto eu escrevo na minha agenda, apenas um outro caderno e alguns lápis me rodeiam. O computador está há um metro e meio à minha direita, desligado. Pela janela, à esquerda, observo as orquídeas penduradas na parede. Nenhum tem flor. Elas devem estar felizes pela chuva fina que cai. Ao fechar os olhos, percebo o som de minha mãe digitando no teclado do computador, o barulho de uma panela ao fogo na cozinha, parte dos preparativos para o almoço. E tudo isso embalado pelas conversas dos pássaros.
O canto dos passarinhos é um fato permanente do meu cotidiano, mas eu raramente percebo. No dia a dia estou mais preocupada com outro sons, como os sinais de alerta de novas mensagens no celular, o barulho da televisão avisando o início de um programa que tenho interesse em assistir, a buzina do carteiro avisando que a compra feita na Amazon chegou. Ou minha cabeça fica distraída, pensando em todos os afazeres do dia que preciso cumprir.
Mas não hoje. Hoje eu me permiti alguns minutos de conexão com as sutilezas do meu cotidiano. Com o instante em que estou vivendo. No fim, a rotina nada mais é do que a soma desses pequenos momentos que na maioria das vezes deixamos de perceber. O barulho do fogo. A canto dos pássaros. A exuberância das plantas. O atrito da caneta quando toca o papel. A magia de observar palavras nascerem de uma folha em branco.
A gente só precisa prestar atenção.
Gigi Eco

Time

The year begins and we stay for a few days in the spirit of the holidays. Our head has not yet entered very well into the routine. With the rest of the holidays, we live with more tranquility, taking advantage of every moment. Living the present moment.
Maybe the New Year has exactly this purpose. To get us out of the routine. To force us to think of cycles. Of changes. Transformations. To remind us that life needs lightness. That we need to live with intensity. Right here, right now.
As I write in my notebook, just another notebook and some pencils surround me. The computer is a meter and a half to my right, off. Through the window, to the left, I watch the orchids hanging on the wall. There are no flowers. They should be happy for the thin rain that falls. As I close my eyes, I notice the sound of my mother typing on the computer keyboard, the sound of a pan cooking in the fire, part of the lunch preparations. And all this stuffed by the birds’ talk.
The song of the birds is a permanent fact of my daily life, but I rarely realize it. On a daily basis I am more concerned with other sounds, such as the warning signs of new messages on my cell phone, the noise of the television announcing the beginning of a program I’m interested in watching, the postman’s warning that Amazon’s purchase arrived. Or my head is distracted, thinking of all the chores of the day that I have to keep.
But not today. Today I allowed myself a few minutes of connection with the subtleties of my daily life. With the instant that I’m living. In the end, the routine is nothing more than the sum of these little moments that most of the time we fail to notice. The noise of the fire. The singing of the birds. The exuberance of plants. The friction of the pen when it touches the paper. The magic of observing words born from a blank sheet.
We just have to pay attention.
Gigi Eco
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Written by Gigi Eco
Gigi Eco ama aprender e faz muitas coisas ao mesmo tempo - é jornalista, fotógrafa, professora, rata de biblioteca e musicista por acidente. Ama viajar e é viciada em chás. É a escritora oficial dos cartões de Natal da família. É Doutora em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e atualmente trabalha no seu primeiro livro de poesias.