“Luzes na cidade”, diria Chaplin. Ele levanta de madrugada. Da janela observa o sono alheio. A cidade dorme. A cidade é só dele.
“Curioso”, pensa. “Todas as ruas e lojas e casas e trajetos. Tudo é casca. O que faz uma cidade são as conexões invisíveis. Os corações humanos que se conectam por teias”.
Como mapear uma cidade? Como mapear os corações?
Talvez a única forma seja pela arte – caminhar pelas ruas. Absorver a atmosfera. Enfrentar multidões. Deglutir. Deglutir o caos. Sangrar até que fora e dentro estejam misturados e não seja mais possível identificá-los.
Dali surgirá algo. Algo sobre as conexões invisíveis.
As cidades invisíveis de Calvino.
“Delírios”, conclui.
O piano chama. Ele bebe uísque e começa a tocar. O vizinho acorda. O vizinho pensa em ligar para o síndico, mas já desistiu. Sabe que não tem jeito. Músicos temperamentais não mudam. A madrugada pertence a eles. Mas, só para não perder o costume e externar sua raiva, o vizinho pega seu taco de golfe e bate com força no chão, para que o músico escute e saiba que incomoda.
“Finalmente”, pensa, “É hora dos fortíssimos”. Time for Beethoven.
O músico usa toda a sua energia para acordar o prédio.
Começa mais um dia.
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Written by Gigi Eco
Gigi Eco ama aprender e faz muitas coisas ao mesmo tempo - é jornalista, fotógrafa, professora, rata de biblioteca e musicista por acidente. Ama viajar e é viciada em chás. É a escritora oficial dos cartões de Natal da família. É Doutora em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e atualmente trabalha no seu primeiro livro de poesias.